domingo, 23 de outubro de 2011

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire

Texto: Marcio Junqueira
Fotos: Dolores Rodrigues



Numa tarde fria de fins de junho fui encontrar Seu Zito em seu ateliê-marcenaria, na rua...... Nos conhecemos há uns 6 ou 7 anos e sempre destaquei o seu trabalho dentro do panorama que eu chamo de “geração 00 das artes feirense”. A geração que apareceu nesta ultima década e que tem nomes e propostas muito diferentes. Em minhas listinhas particulares penso nos seguintes nomes: Gabriel Ferreira (com pintura-desenho baseado no corpo afro-brasileiro, com especial atenção a capoeira); Leide Velame (com instalações, objetos e performances sempre irreverentes) ; Denilson Santana, vulgo Coruja (com pinturas, objetos e uma produção teórica das mais loucas); Mytisuyana Matsumo (trabalhando com fotografias raspadas e dança); Karomilla Marco (com objetos e fotos); Quito di Souza (que usa camisetas como suporte para poemas visuais pops), Vitor Venas (com um trabalho multimídia e pedagógico dos mais interessantes) ; Aline Costa ( sobretudo com pinturas chapadas); Carol Barreto (que, para além do seu trabalho com moda, tem uma produção visual instigante e bem informada, apesar de oculta) e eu mesmo (com meu trabalho lírico).

Em comum a faixa etária que gravita em torno dos 30, certo perfil universitário, o trânsito por diversas linguagens (sempre com apelo pop),  o fato de não serem feirenses de nascimento (em sua maioria) e um imaginário predominantemente urbano. Seu Zito é quem mais difere desse perfil. Um dos meus projetos, sempre adiados, era fazer um inventário dessa nova produção, contrapondo esse imaginário à mitologia rural da cidade construída principalmente através da obra de Juraci Dórea. O nome da exposição seria “Quem tem medo de Juraci Dórea?”, e acredito que faria bem tanto aos novíssimos quanto ao trabalho de Juraci, que nunca teve o reconhecimento crítico que lhe é devido.             

            Seu Zito me recebe cercado de telas, pincéis, tubos de tinta, cola, lixadeira, serras, tupias, toras e lindas peças de madeira que produz há mais de quarenta anos. Enquanto meu olho se perde entre formas retorcidas de madeira e pequenas caixas coloridas, Seu Zito, com voz tranquila e cheio de humor, vai me contando sua historia. Nasceu na pequenina cidade de Heliópolis (SE), onde vivia do biscate de passarinhos, carros de barro, balas de badogue e laranjas (na porta do cinema) . Chegou a Feira de Santana aos 16 anos, a caminho de São Paulo, refazendo o itinerário do seu irmão mais velho. Em sua primeira tarde na cidade viu um serralheiro trabalhando sozinho e se ofereceu para o cargo de ajudante. Naquele mesmo dia fez uma cama, a primeira, a sua. Quatro anos depois abriria a sua marcenaria, a mesma onde me recebe.
Um artista que nasceu maduro


O primeiro quadro só veio em 2000, aos 58 anos, por conta do conserto de um guarda-roupa. A peça, muito antiga, apresentava umas das laterais tão estragadas que resolveu lhe aplicar um curativo: uma mulher moldada em massa acrílica e pintada em tons agudos. Antes disso nunca tinha entrado em um museu. Que se lembre, só tinha visto uma exposição, alguma coisa sobre Lampião e Maria Bonita. Mas não chegou a mobilizá-lo. O desejo de pintar era antigo, mas pintura, artes plásticas, a própria palavra arte, lhe parecia algo tão rarefeito. Tão distante dos guarda-roupas, armários e penteadeiras que lhe cercavam no seu dia-dia de marceneiro.

Fora um elogio do escritor Juarez Aires, seu antigo amigo e cliente, as coisas continuariam rarefeitas, não fosse seu encontro com K. Maia. Foi K.Maia que, vendo uma das suas pinturas, descobriu alguma semelhança com o trabalho de Herivelton Figueredo e resolveu apresentá-los. Entrou no circuito. Desde então foi um sem numero de salões regionais, grupos e coletivos. Primeiro o PRÓ-ARC (com coordenação de Herivelton Figueredo e participação de Leide Vellame, Bena Loyola, Denilton e Seu Manuel de Eça) durante um ano e meio. Depois, uma breve passagem pelo GEMA (de Maristela Ribeiro). Finalmente o 4 LINHAS, que fundou aos lado de K.Maia, Ronaldo e Agnaldo. Seu Zito tem pressa.          

Começa a pintar por volta de seis e meia da tarde. Finda as obrigações do marceneiro se inaugura o pintor. Pinta geralmente até nove da noite. Antes das dez já está dormindo. Acorda sempre às cinco da manhã. Na ultima quinta-feira do mês (de 3 a 5 da tarde) assiste às sessões da Academia de Letras. Não gosta de musica e lê pouco. Aos domingos frequenta a Igreja Batista Regular, da qual é membro há quarenta anos. Não acredita que exista relação entre sua fé e sua pintura.

Enquanto falamos sobre a precariedade do mercado de arte em Feira de Santana (dominada por quadros feitos para combinar com sofás) e a necessidade de solidariedade entre os artistas, Seu Zito me conduz a uma espécie de museu particular. Uma sala de aproximadamente 5x 3,5 m , com as paredes forradas de pinturas. Soldados, espirais, folhas, conchas, casas, nuvens, manchas, garotos, senhores e uma infinidade de formas inomináveis onde meus olhos se perdem. Tudo em cores quentes. Nos cantos da sala mais telas se acumulam. Futuco algumas, faço perguntas e mais historias vão brotando. Exposições em Viena, Nova York, Roma, Londres e nas Ilhas Canárias. Projetos de oficinas na zona rural, uma exposição em Tobias Barreto , curadorias... Muitos projetos.

Quando deixo o ateliê de Seu Zito uns últimos raios de sol estertoram para os lados do Tomba. A garoa fina intensifica certa nostalgia de fim de tarde. Um poema de Jorge Luis Borges me obseda. Um poema chamado “Os justos”, em que Borges retoma o episodio bíblico (Gênesis, 18) de quando Deus queria destruir Sodoma. Abrão intercede pela cidade dizendo que se houvesse cinquenta justos na cidade eles não poderiam pagar pelos injustos. Deus aceita o trato e admite não destruir a cidade se ali encontrar cinquenta justos. Abrão, depois, fala em quarenta e cinco, depois quarenta, trinta e cinco, trinta, vinte e cinco... até que fica combinado que, se houvesse ali dez homens justos, a cidade seria salva. O poema de Borges é uma inusitada lista dos possíveis salvadores da cidade. A caminho do ônibus vou lembrando os versos: Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem essa página que talvez não lhe agrade. Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto. O que acaricia um animal adormecido. O que significa ou quer significar um mal que lhe fizeram. O que agradece que na terra haja Stverson. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.

Texto publicado na Página 3 do Folha do Estado - edição nº 3346, 21 de novembro de 2010, a pedido de Paulo Rabelo. O texto, com o título original, O Justo, também foi publicado no blog da Transa Revista (http://transarevista.blogspot.com/2010/11/por-marcio-junqueira-foto-dolores.html)
  

sábado, 22 de outubro de 2011

Rosa Scarlett por ela mesma

                                     
Foto: Patrícia Martins


Rosa Scarlett se submeteu à cirurgia de troca de sexo na Espanha, no dia 07 de março de 2006

Depoimento de Rosa Scarlett

A partir de meus seis anos de idade a vizinhança notou que eu era um menino diferente dos outros garotos, que eu era muito delicado. Com o passar do tempo eu fui confirmando aquelas suspeitas. Mas foi com 16 anos que eu comecei a deixar de lado as roupas de menino e a assumir minha feminilidade. Foi bastante difícil, pois eu morava com meu pai, minha mãe, uma irmã, um irmão e um avô, aqui mesmo em Feira de Santana.

Comecei a fazer programas antes de sair de casa, quando comecei a me vestir como mulher. Minha família começou a desconfiar, quando comecei a sair frequentemente à noite e a me ver com dinheiro sem ter trabalho formal, e foram investigar. Foi nesse período também que comecei a tomar hormônios.
Apesar de minha relação familiar ter sido sempre difícil, eu nunca fui posta pra fora de casa. Fui eu mesma que decidi sair de casa quando tinha 19 anos. Na época eu tinha um namorado e a gente resolveu morar junto.Em 1999 comecei a juntar dinheiro para colocar os seios, mas no final daquele ano tive a chance de ir para a Espanha, onde morei pouco mais de 10 anos. Com alguns anos morando na Espanha me inscrevi num programa do serviço de saúde pública de lá, que ajuda as transexuais a fazer a troca de sexo. Eu passei três anos numa lista de espera. Foi bastante difícil conseguir, porque eu não era de lá. Eu já nem me lembrava mais da inscrição, quando um dia eu estava num supermercado com meu parceiro e meu telefone toca. Do outro lado da linha uma moça me falou que eu faria a cirurgia dali a duas semanas e que era para eu estar lá no hospital 12 horas antes da hora marcada para a cirurgia. O meu namorado foi de fundamental importância no período em que tive que ficar em casa para me convalescer. Foi um anjo para mim.
Normalmente, esse tipo de intervenção lá na Espanha é feito com duas cirurgias. Mas é uma coisa muito dolorosa e eu precisava trabalhar, por isso optei por fazer tudo numa só cirurgia, que durou cerca de seis horas. Nessa operação foram retirados os testículos, feito o canal vaginal, retirado todo o corpo cavernoso de meu membro masculino, o canal urinário foi invertido e com a glande foi feito o clitóris. Apesar dessa complexidade, essa cirurgia foi menos dolorida que a que eu fiz no meu nariz.
Aqui no Brasil ainda não tive necessidade de ir a um médico, mas eu penso em ir a um hospital que tem em São Paulo, que é referência em cirurgias de mudança de sexo na América Latina. Quero ir lá para ver como é que estou e para conhecer o método que é aplicado por lá, pois tenho entendido que cada país tem um método para fazer esse tipo de cirurgia.
Antes da chamada, eu já havia passado por uma série de avaliações com psicólogo, psiquiatra e endocrinologista, pois eles tinham que ter certeza que era isso mesmo que eu queria e que eu estava bem, tanto física quanto psicologicamente.
Quando eu fiz a cirurgia já havia colocado as próteses mamárias, estava superfeminina. O silicone dos quadris (líquido) eu havia colocado no Brasil, antes de ir para a Espanha.
Ganhei dinheiro enquanto estive por lá, fazendo programas. Mas eu não vivia em função da prostituição, eu também queria ver o lado bom da vida e aproveitava para ir a shows e festas e curti muita praia por lá, principalmente em Andaluzia e em Málaga. Hoje, tenho mais de duas mil fotografias nas minhas páginas na internet, pra provar para mim mesma que eu aproveitei aquilo tudo o máximo que pude, pois sabia que um dia ia terminar.
Quando eu voltei para o Brasil, em outubro do ano passado, pensava que as coisas iam ser mais fáceis, pois já conhecia como funcionam as coisas por aqui. Meus planos era conseguir logo um dinheiro para me estabelecer por aqui até partir para trabalhar em outra área, pois tenho experiência em venda de cosméticos e roupas. Quando as coisas melhorarem para mim, farei alguns cursos, pois não quero viver de programas a vida inteira.
Depois que voltei pra cá, vejo que me desiludi bastante. Eu achava que as coisas iam ser mais fáceis, mas as pessoas ainda não estão educadas para ver a diferença entre uma transexual, um gay ou uma travesti que está começando, para eles é tudo a mesma coisa. Mas não é bem assim.
Há dois meses entrei com um pedido na Defensoria Pública para mudar o prenome. Lá os advogados disseram que não haverá muito problema para eu conseguir a mudança de nome e que, inclusive, meu caso já estaria sendo avaliado por um juiz. Por eu já ter trocado de sexo, será mais fácil trocar o nome.
Hoje, apesar de todas as dificuldades que a vida me apresenta, eu sou uma pessoa feliz e só quero que as pessoas me respeitem pelo que eu sou, assim como respeito a todos.

* Publicado no Folha do Estado, edição nº 3.583, no dia da X Parada Gay de Feira, 28 de agosto de 2011

Pequenas e grandes histórias de travestis em Feira


Texto: Paulo Rabelo
Fotos: Patrícia Martins 


“Sábado e domingo são os dias em que não faço programas, só amor”, Talita, 36



À noite, em esquinas próximas a avenidas famosas pelo comércio do sexo, sob focos de luz fraca de alguns postes, elas se perfilam e exibem suas silhuetas femininas esculpidas através da ingestão de hormônios durante anos e/ou silicone industrial introduzido perigosamente pelas mãos de alguma travesti “bombadeira”.
Bruna, 20 anos recém-completados, que exibia uma maquiagem muito bem feita e cabelos naturais longos e pretos, foi a primeira a ser entrevistada naquela segunda semana de agosto. A fotógrafa não foi autorizada a registrar a sua imagem, pois a travesti teme que a mãe (que pensa que ela trabalha num salão, como cabeleireira), a reconheça e saiba que ela se prostitui.
Bruna conta que começou a "se travestir mesmo, usando roupas mais femininas”, há pouco mais de cinco meses, logo depois de sair de sua cidade de origem, a algumas dezenas de quilômetros de Feira de Santana. “Antes eu já vestia roupas de mulher e usava maquiagem, mas misturava às roupas algumas peças do guarda-roupa masculino e a maquiagem era mais discreta, era rímel, pó compacto e um batom discreto”, diz.
Prostituindo-se há pouco mais de dois meses, sempre na mesma esquina de uma rua do Centro da cidade, ela diz faturar o suficiente para o aluguel, suas despesas pessoais, roupas e maquiagem. “Faço programas todos os dias, mas é no final de semana que consigo faturar mais”.
Sobre os perigos que corre à noite e sozinha, tendo que entrar em mais de um veículo por noite, a iniciante diz que a única coisa que lhe aconteceu em seus dois meses na noite foi um assalto. “Um rapaz parou de bicicleta, mostrou uma faca e me mandou passar tudo o que eu tinha. Entreguei minha bolsa e ele foi-se embora”, conta.

Deixando os programas aos poucos
                                       
Talita, 36 anos, que se traveste há oito anos, conta-nos que desde que optou vestir-se como mulher tem vivido de programas. Feirense do bairro Queimadinha, onde se criou e vive até hoje, ela mora vizinha de seus oito irmãos. “Todos os meus irmãos são nota 10, nunca demonstraram qualquer tipo de preconceito contra mim”, diz.
Alta, magra e cabelos loiros longos, Talita tem formas enxutas, menos arredondadas, ganhas à custa de hormônios. “Nunca apliquei silicone, nem pretendo”, disse. Perguntada se faria a cirurgia de mudança de sexo, foi peremptória: “Nunca! Primeiro porque estou satisfeita com o corpo que tenho e, segundo, meus clientes não gostariam que eu tirasse seu brinquedo favorito”.
Talita conta que está concluindo um curso de corte e costura e que pretende fazer outros cursos, para ocupar a mente durante o dia e poder mudar, aos poucos, a sua fonte de renda. “Vai chegando a idade e eu sei que um dia não vou mais querer fazer programas”.
Assumidamente ativa em seus programas, como a maioria de suas colegas, Talita conta que cobra de 50 a 150 reais. “Depende do que eu vou fazer, pois às vezes eles (os clientes) querem que eu satisfaça alguns fetiches. Quanto mais estranho o fetiche, mais alto o cachê”.
Bom papo, Talita também diz que nunca usou qualquer tipo de droga, embora a maioria de seus clientes use, e que está com o mesmo namorado há anos. “A gente tentou morar junto, mas não deu certo. Está melhor assim, cada um em seu canto. Mas a gente passa o final de semana sempre juntos, na minha casa ou na dele. Sábado e domingo são os dias em que não faço programas. Só amor", declara com firmeza.

O preço da beleza



“É o preço da beleza, meu amor! Silicone é sorte, não são todas que se dão, não”, diz Roberta


Dizendo ter trinta e alguma coisa ao se referir à própria idade, Roberta é mais simples no vestuário e no modo de falar que as outras duas entrevistadas da noite. “Já trabalhei de carteira assinada, numa fábrica de doces que já fechou. Mas, como é difícil darem emprego a um gay que está se transformando - pior ainda é a situação dauqle que, como eu já se transfomaram-, pois as pessoas ainda são muito preconceituosas, tive que levar minha vida, né?”. Há sete anos na prostituição, ela diz morar vizinha à mãe e os irmãos e que a relação familiar é “normal. Ninguém se mete na minha vida e eu não me meto na vida de ninguém”.
São muitos os perigos que a noite guarda para Roberta e suas colegas de profissão. “Chega um carro, ele para, geralmente me perguntam qual meu dote (tamanho do pênis) e eu entro no carro. Uma vez lá dentro não sei o que vai acontecer comigo”, revela, contando que por algumas vezes já teve uma arma apontada para a cabeça, acompanhada sempre com ordem para descer do veículo depois do programa. “Isso sempre acontece com todas as travestis que eu conheço: a gente sai com um cliente e no final eles não pagam. Já fui deixada num matagal próximo a Salvador”, lembra.
Segundo Roberta, o dinheiro que ganha dá para sobreviver. “Isso porque moro no terreno nos fundos da casa de minha mãe. Mas, se tivesse que pagar aluguel, talvez não desse”. Os seus serviços custam de 40 a 50 reais, “mas podem chegar a mais, dependendo do cliente e do modelo do carro”, conta, bem humorada.
“Para me transformar numa travesti eu me inspirei em outras travestis que eu via aqui em Feira. Aí comecei a tomar hormônios e, depois que consegui guardar um dinheirinho, coloquei meus seios e minhas curvas”, disse, referindo-se aos 250 mililitros de silicone de veículo injetados em cada peito, dois litros distribuídos pelos quadris e mais um litro aplicado em cada glúteo. Quando perguntada se tem consciência dos riscos que corre, responde de imediato: “É o preço da beleza, meu amor! Silicone é sorte, não são todas que se dão, não”. O preço desses adendos que deram formas femininas a seu corpo foi mais de três mil reais. “Elas (as bombadeiras) costumam cobrar mil reais pra cada parte do corpo. Meus peitos, por exemplo, custaram mil, e as outras partes também. Mas temos outras despesas, como remédios, transporte e às vezes temos que pagar para alguém tomar conta da gente durante o resguardo”.
O silicone usado pra moldar o corpo de Roberta e tantas outras travestis, de acordo com seus sonhos e suas possibilidades, não tem indicação médica. Por ser líquida, a substância pode contaminar a corrente sanguínea e trazer danos irreversíveis, como feridas, necroses e tumores que requerem a retirada parcial ou total do tecido. Em casos extremos, a aplicação desse tipo de silicone pode levar a travesti à morte.

VIOLÊNCIA E OMISSÃO: 2 VERSÕES ASSASSINAS DA HOMOFOBIA

Não bastasse o silicone industrial injetados em seus corpos e clientes violentos e caloteiros, as travestis que fazem trottoir pelas noites feirenses correm outros riscos de morte. Roberta se lembra de sua amiga Paulina, que em 2008 foi arrastada por 50 metros por um veículo de dados ignorados, sofreu vários traumas e morreu quatro dias depois do atentado. Mesmo queixando-se de dores por todo o corpo, os médicos que a atenderam no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) a liberaram depois de um primeiro atendimento, rápido e superficial.
Rafael Carvalho, presidente fundador do Glich, que em texto publicado em março de 2010 no número 1 da Transa Revista, intitulado “Homofobia”, fez um breve levantamento dos assassinatos de travestis em Feira na primeira década desse século, também cita as mortes das travestis Roberta e Cristina, que “foram abatidas a tiros em plena Avenida Getúlio Vargas, em 2003”. Porém, estes dados são apenas a ponta de um iceberg mergulhado num mar de sangue derramado pelo ódio homofóbico.
Rafael contou-nos que na segunda semana de agosto uma travesti apareceu na sede do Glich para se queixar de um motorista de ônibus que, pela segunda vez, jogou o fundo do veículo contra ela. “No dia em que ela esteve aqui para nos contar, uma de suas pernas tinha um hematoma enorme, porque bateu em um dos lixeiros fixos do Terminal Central, fugindo do ônibus”.
Esse tipo de violência, velada, que pode soar como brincadeira para alguns, e as agressões verbais, são as mais recorrentes contra as travestis de Feira de Santana. “Além desses tipos de agressões há a violência física que não culmina em morte e os assassinatos, que são os casos extremos”.

Publicado no Folha do Estado, edição nº 3.583, no dia da X Parada Gay de Feira, 28 de agosto de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

Salve, salve: é Jesus com a gente e com Jorge

O reggae é paz e muito mais! 

Texto: Paulo Rabelo
Fotos: Dolores Rodriguez


“A música da Rua Nova está para Feira como o sal está para a comida”



Primeiro cantor de reggae em Feira de Santana e na Bahia (dizem alguns que talvez no Brasil), Jorge de Angélica, 52 anos completados no último dia 07, teve contato com a música jamaicana surgida no final da década de 1960 ainda no começo dos anos 70, através de uma emissora de rádio de Feira. Foi paixão logo à primeira audição. “Ouvi uma música de um cara do qual nunca mais ouvi falar, um cara chamado Bob Uc”, ou algo de sonoridade parecida.

Para quem nasceu cantando (“o pessoal é que pensou que aquilo fosse um choro”, costuma brincar) e foi criado nas casas de candomblé da Rua Nova, ouvindo e tocando desde os 10 anos de idade os instrumentos de percussão nas festas e rituais dos terreiros, incorporar aquela batida foi muito fácil. O negócio pegou-lhe como um visgo de jaca, do qual nunca fez o menor esforço para se livrar.
Antes dos 10 anos Jorge já tirava som do que estivesse por perto: bacia de lavar roupas, mesa, tamborete, latas de querosene, latas de óleo de salada e o que mais ecoasse. Hábito do qual também não se livrara. Como o seu pai, João Amaral (filho de Xangô), que era ogã de um terreiro da Rua Nova, e sua mãe, a dona Angélica (filha do Tempo), também frequentava candomblés desde pequena, a musicalidade de Jorge, que ele também atribui a seus ancestrais, aflorou muito cedo. “Primeiramente vem de Deus, de Jesus, pois é ele quem distribui os dons”, esclarece.

Mesmo sendo “chamado de louco, ladrão e maconheiro”, como ainda se lembra, sem rancor, vez ou outra alguém lhe dava oportunidade de mostrar o talento percussivo nos sambões que aconteciam nas barracas de cerveja, típicas das festas de largo que aconteciam na Matriz, na Kalilândia e no Cruzeiro. “Eu devia ter uns 14 pra 15 anos quando o pessoal dos sambões, que já me via tocar nos terreiros, dava a chance de batucar com eles. Lembro que eram músicas de Martinho da Vila, Jair Rodrigues e quem mais estivesse em evidência”.

Enquanto isso a menina de seus olhos continuava sendo regada, embora suas apresentações se restringissem a uma pequena plateia composta por sua “galera” da Rua Nova e um ou outro apaixonado pelo ritmo que ainda estava sendo descoberto em Feira de Santana.
Muito cedo, “com uns 15 anos”, Jorge também aprende a expressar (em palavras e ritmo) questões que lhe são muito próximas e fazem parte do cotidiano seu e da sua irmandade de cor e outras que ultrapassam temas como a mera tonalidade da pele. O compositor é taxativo ao admitir que a tomada de consciência de pertencimento à cultura de matriz africana (e uma atitude afirmativa, positiva) e as injustiças históricas vividas pelo povo negro é um dos temas das músicas que compõe. “O reggae ajudou, está ajudando e vai sempre ajudar. Nas músicas de reggae, do verdadeiro reggae, você vai encontrar palavras de direitos iguais e de justiça, além de um unguento que traz alívio e cura para as feridas. Essa música é um instrumento que ajuda o indivíduo a refletir acerca do mundo e de si mesmo. Reggae, para mim, também significa paz, harmonia, amor, insistência e perseverança”.
Agitador cultural de sua comunidade, pelo ido ano de 1976 Jorge teve a ideia de montar o primeiro afoxé da Rua Nova, o “Filhos da África”, tendo como parceiros “Nezinho” e Marivaldo. O trio juntou “uma rapaziada, também autodidata, que curtia música e tinha dom para ela”, à qual ensinaram a tocar instrumentos de percussão para desfilarem nas micaretas, tocando e cantando as canções compostas por Jorge de Angélica. “Dois ou três anos depois, por uma questão da qual não me lembro, pediram que mudássemos o nome do afoxé. Então rebatizamos o afoxé de Zimbábue”, que em 1985 se tornaria o afoxé que conhecemos como “Pomba de Malê”. A primeira canção composta por Jorge para o afoxé foi “Bahia Negra”, depois vieram outros sucessos, entre os quais se destaca “Cobra Coral”. 
                                        
Andar com fé e “Gana” nunca lhe falhou

“Eu compus pouco porque tenho dificuldade para escrever, então as músicas que componho vão nascendo em ‘rascunhos’ que vou armazenando em minha mente e dali mesmo eu tiro o arranjo, a letra e coisa e tal”

“Mais ou menos em 1986”, lembra-se, “uma mãe de santo do Cruzeiro, a mãe Helena [já falecida], me falou: ‘Jorge, você está sempre aqui em minha casa, tocando nas festas que eu faço... quero lhe dar um presente: Sei que você quer ter uma banda, então, arranje os músicos que eu dou os instrumentos’”.

Com o “pé no mundo” atrás dos músicos com os quais desejava montar sua primeira banda. Ele recorda que o mais difícil foi conseguir trazer para seu projeto Tonho Dionorina, músico de formação clássica, estudioso da obra de Villa-Lobos que na época dava aulas de música no Sesi. Mas nada disso intimidou o guerreiro. “Fui ao Sesi convidar Dionorina para montar uma banda. Mas havia lá uma pessoa de sua relação que o advertia: ‘Rapaz, você, um músico reconhecido vai se meter com esse cara da Rua Nova? Olha lá, veja bem, esse cara é um maluco’”, recorda.
Voltando desanimado à casa de mãe Helena, ele lhe falava: “Tá difícil, tá difícil”, ao que a sábia senhora respondia calmamente: “Rapaz, tenha fé em Deus e corra atrás. Enquanto eu estiver viva, estarei aqui pra lhe ajudar”. Sempre com Jesus Cristo à sua frente (“primeiramente”, como sempre diz o músico) e reanimado, volta à procura do filho de dona Honorina. Tonho, que já conhecia o trabalho do filho de dona Angélica na Rua Nova e no Pomba de Malê, aposta pra “ver qual é de mesmo”. Assim nasce a primeira banda de reggae de Feira de Santana e da Bahia, batizada de “Gana”, que quer dizer “vontade, apetite, desejo e ambição de conseguir, de vencer; além, é claro, de ser uma referência à República do Gana, na África”, explica o seu idealizador.
A formação de “Gana” contava com Nilton Rasta (percussão), Manoel Rasta (“que hoje está fazendo música e morando na Bélgica”), Nunes Natureza, três moças que faziam o backing vocal “e a gente chamava de ‘as doces’”, Paulo Monge (guitarra harmônica), Célio Túlio (guitarra) além de Jorge de Angélica e Tonho Dionorina, que, além de dividir o vocal com Jorge, também tocava vários instrumentos de corda.
O músico e compositor de afoxés e reggae Nunes Natureza, que hoje tem uma pequena banca onde vende doces, cigarros e jornais, na Rua Marechal Deodoro, diz que, “com certeza, o Jorge é o primeiro cantor de reggae da Bahia... desconfio que até do Brasil. Até a formação da Gana a gente não tinha conhecimento de uma banda reggae no Brasil. Logo depois é que a gente ouviu falar de uma banda apadrinhada por Gilberto Gil, composta de músicos das Guianas. Seguramente, Jorge é o mais ilustre representante do reggae no Brasil”, completa Natureza.
Nas apresentações que começaram a fazer em Feira e outras cidades do interior da Bahia, Gana tocava basicamente canções compostas por Jorge. “Numa dessas viagens, acho que para Vitória da Conquista, onde a gente ia fazer uns shows, ficamos ‘embargados’ numa barreira policial. Eu disse: ‘Glória a Deus’, e toda vez que faço isso Ele atende... Daqui a pouco vem um veículo cheio de gente importante e quem estava ao volante era um juiz de direito, ‘mamado’ àquela altura – era carnaval. Foi uma confusão danada... só sei que com a carteirada do doutor todo mundo foi liberado”.
Quase dois anos depois de formada a Gana, Dionorina se afasta. Capitaneada por Jorge, Gana ainda participou de alguns festivais, mas em pouco tempo se desfaz. A próxima banda formada por Jorge seria a “Guerrilha Radical”. A iniciativa de Jorge de montar uma banda voltada exclusivamente para a música que nasceu na Jamaica no final dos anos 1960, valeu a pena, pois em pouco tempo depois de Gana surgiram outras bandas de reggae no cenário feirense e baiano. “Aqui surgiu a banda Esperança, montada por Gilsam, lá pelo final dos anos 80”, exemplifica.

200 LETRAS
Jorge estima que suas composições, ao todo, cheguem a 200. Número considerado pequeno para um músico que desde criança sabia que queria viver de e para a música. “Eu compus pouco porque tenho dificuldade para escrever, então as músicas que componho vão nascendo em ‘rascunhos’ que vou armazenando em minha mente e dali mesmo eu tiro o arranjo, a letra e coisa e tal”, revela o músico autodidata, que diz que “o pouco que compus está dando para segurar a onda”.

Da “Sopa de papelão” à Trilogia do Reggae


“A macieira está começando a dar frutos. Ainda não é aquilo que a gente precisa, mas antes pingar do que faltar. Já tive dias piores”

Nada vem fácil para o guerreiro filho de Xangô “e de Jesus, primeiramente”, como faz questão de esclarecer. Se sua primeira banda veio depois de mais de uma década de luta, o primeiro disco de Jorge lhe é dado de presente no dia 6 de abril de 1996, quando já não se gravava mais em LP, um dia antes de completar 37 anos.

“Eu procurei o deputado Zé Neto, que na época ainda não era nem vereador, e lhe pedi ajuda pra gravar meu primeiro disco, pois já havia gente do reggae, cria minha, que falava por aí que eu ‘já era’. Não precisou eu falar muito, ele disse: ‘Faça o orçamento que a gente vê como faz’. Não vacilei. Na mesma tarde eu e um camarada, que fazia a produção dos meus shows, o Paulo Humberto Sérgio, pegamos o lotação canela e fomos bater na porta de uma gravadora que ficava na Maria Quitéria. Quando chegamos à gravadora, dois negões suados e usando chinelos de dedo, a recepcionista nem abriu a porta. Só perguntou o que a gente queria. Falei que era o orçamento de um CD, etc. Acho que pra se livrar logo da gente ela fez lá um cálculo qualquer e me entregou num pedaço de papel. Quando vi aquilo, não acreditei: não chegava a custar nem a metade do que eu imaginava”, lembra.

Ele recorda também que no mesmo instante voltou a bater pernas para a casa de Zé Neto. “Quando ele viu o valor, pegou o telefone, acertou logo a data de gravação e tratou de fazer o cheque pra garantir. Acho que a moça fez uma conta qualquer porque não levou o lance a sério”.

Assim veio à luz “Sopa de Papelão”, com uma faixa que dá nome ao CD, “Gangue perseguindo gangue”, “Bahia negra” e reggae love “Rosa”. Mais alguns anos depois, sempre com luta e perseverança, conseguiu gravar mais dois CDs solo: “Confiança em Deus”, com 14 faixas, e “A luta continua”, com 12.

Trilogia do Reggae

Músico de trabalho marcadamente autoral, Jorge admite que toda a sua trajetória musical solitária de décadas surtiu a metade do efeito que vem surtindo há pouco menos de dois últimos anos, quando somou forças com Dionorina e Gilsam para apenas um show, batizado de Trilogia do Reggae, e que aconteceria “graças à providencial proposta da professora Selma Soares”.

Selma Soares, professora de História e Teoria da Arte na Uefs, à época a que Jorge se refere (2009), era diretora do Centro Universitário de Cultura e Arte , o Cuca. Jorge a procurou pedindo o espaço do teatro de arena do Cuca para um show de reggae. Admiradora do trabalho de Jorge, ela lhe diz: “Gostei muito da ideia, Jorge. Mas, que tal se a gente a ampliasse?” Assim foi proposto a ele uma parceria com dois outros grandes reggaeman, que ele já conhecia do afoxé “Pomba de Malê”: Gilsam e Tonho Dionorina. O encontro, que seria apenas um show, foi batizado de “Trilogia do Reggae”.

Resumo da ópera: Por problemas técnicos o show foi desmarcado em cima da hora e só aconteceu quase um mês depois, em novembro de 2009. Sucesso e reconhecimento de um público bem maior, Trilogia do Reggae superou as expectativas. E a formação feita para um show extrapolou os limites: Nos carnavais de 2010 e 2011 de Salvador “Trilogia do Reggae” teve trio elétrico no principal circuito; assim também aconteceu na Micareta de 2010 e deve repetir-se nesta.Êa!





domingo, 13 de março de 2011

A fina flor do samba em Feira

Texto:Paulo Rabelo Foto: Renata Sobreira                        Com um ano e quatro meses de formação, Maryzélia e os Coisinho servem de referência musical para quem mora ou passa por Feira



Ela não está pra brincadeira, afinal a música entra em sua vida antes mesmo de sua concepção. Seus pais, casados há 36 anos, passaram nove anos namorando. Nesse período eles já faziam o seguinte plano: “Se a gente se casar, vai ter uma filha que goste de samba e que ame a música. Se for mesmo uma menina, o nome dela vai ser Maryzélia”, assim contou a filha de seu Maurício e dona Zélia, que lhe contaram a história que agora lhes conto. “Para não ficar ‘Maurizélia’, eles americazaram com o y”, explica, com o bom humor que parece ser uma de suas marcas.

Adoniran Barbosa, Clara Nunes, Elza Soares, Elizete Cardoso, Dicró, Cartola, Quarteto em Cy, Novos Baianos, Bezerra da Silva, Elis Regina, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Reisado Roubado (manifestação popular que acontece no dia 5 de janeiro, Dia de Reis) da terra de seus pais, Santo Estevão (BA), festas de São João, samba de roda, chula... Tudo isso e muito mais faz parte do repertório musical e afetivo (se é que dá para separar as duas coisas) de formação da cantora feirense, hoje com 35 anos.
Mesmo com tudo isso, a moça nascida em 05 de fevereiro, “três dias depois do de Iemanjá”, sofreu (por pouco tempo, é bom que se destaque) com baixa autoestima. “Lá pelos 20 anos eu não acreditava muito em mim e na minha voz, embora meu desejo, desde que me conheço por gente, sempre foi fazer música”. Assim, vez e outra Maryzélia gravava algum jingle para comerciais e programas de rádio e TV locais e participava como backing vocal de alguma banda, quando surgia oportunidade, “porque não queria muito aparecer”. Mas Deus é bom e justo e, com o tempo, a moça toma coragem e começa a mostrar a voz. Entre o final dos idos 1990 e início dos 00, ela fez parte de um grupo musical Chamego da Gente.

“Em 2007, mais ou menos, havia um grupo chamado Chorinho e Samba entre Amigos. Seus integrantes tinham um bar tipo um karaokê ao vivo, que funcionava mais ou menos assim: alguns amigos tocavam e outros vinham chegando e, por ordem de chegada, cada um tinha direito a cantar 3 músicas. Meu pai ia sempre e, às vezes, eu o acompanhava e cantava”, conta.

Em 2008 o dono do imóvel onde funcionava o bar pediu o espaço de volta. Em meados daquele ano o grupo de chorinhos, agora contando com a presença constante de Maryzélia, mudou-se para um bar no bairro Kalilândia. Continuou tendo uma primeira parte só de chorinhos e uma parte cantada, onde, então, só ela dividia o palco com os músicos. “No início, eram gatos pingados”, lembra. “De repente, houve um upgrade na onda e o bar começou a lotar e as pessoas que não encontravam mesa iam para a Praça da Kalilândia assistir a meus shows dali mesmo”.

Maryzélia e os Coisinho esquentam as noites de sexta-feira
  Foto: Gal Fernandes

Da esquerda para a direita: Bernardo Lima (violão de 7 cordas), Ivan Marrom (percussão), Maryzélia (voz), Rangel Santos (pandeiro), Rodrigo Pirikito (cavaco) e Joabe Meira (violão)

Ela acabou ficando com Grupo de Chorinhos entre Amigos até o final de 2009, quando formatou Maryzélia e os Coisinho. “Sempre tive muita vontade de fazer alguma coisa que tivesse mais a minha cara e, então, resolvi sair pelos bares onde havia apresentação de grupos de pagode para observar os músicos. Eu tenho um amigo que toca violão de 7 cordas que havia me dito: ‘Mary, o que você resolver fazer, estou dentro’”. Mary e este amigo, Bernardo Lima (o Spaguette), começaram a sair para garimpar outros talentos para o grupo que ela pensava formar. “Desde antes de formar o grupo, pensava em batizar de ‘Maryzélia e os Coisinho’ o que seria montado com essa garimpagem”, revela, sem antes fazer questão de deixar claro que o Grupo de Chorinhos entre Amigos foi “uma grande escola”.

Por que Coisinho? “Coisinho, porque aqui, no Nordeste, principalmente no interior, quando a gente se depara com alguém que não conhece, costuma tratar por ‘coisinho’ ou ‘coisinha’, em situações como: ‘Ô, coisinho, quanto é isto?’; ‘Ô, coisinho, faz mais barato...’; ‘Ô coisinha fofa...”, explica, apertando levemente as bochechas do entrevistador, de um modo dengoso que lhe cai muito bem.

Onde havia um bar em que se apresentavam músicos de samba e pagode, lá estava ela à procura de um e outro Coisinho. Nesses locais, que também funcionavam como um “karaokê ao vivo”, a dona de uma voz doce faceira e ouvido exigente ia observando os músicos que se sobressaiam. “Na maior cara de pau eu chegava para eles e dizia: Olha, estou com uma proposta de montar um grupo assim, assim... Você topa?”. E, assim, foram juntados os cinco Coisinhos que hoje compõem o acompanhamento luxuoso da cantora que, com simpatia, suingue e muita graça vem fazendo um público cativo nos finais de semana pela cidade e região. São eles: Bernardo Henrique Lima Mota (Spaguette), violão de 7 cordas; Ivan da Conceição (Ivan Marrom), percussão; Joabe Meira (Jójó), violão; Rodrigo Sousa (Pirikito ), cavaco; Rangel Santos, pandeiro.

Atualmente, “Maryzélia e os Coisinho”, às sextas-feiras, a partir das 22 horas, lota um espaço com capacidade para um pouco mais de 200 pessoas, localizado na Avenida João Durval. Aos sábados e domingos ela sempre tem shows em festas particulares, como formaturas, aniversários e casamentos. Não é difícil encontrar seus contatos na web, afinal, ela se diz aficionada em redes sociais.

REFERÊNCIA E REVERÊNCIA   

Com um ano e quatro meses de existência, Maryzélia e os Coisinho se tornaram uma referência cultural da cidade. A sua plateia, não raramente, é composta por cariocas, paulistas, angolanos, recifenses e soteropolitanos, entre outros, que vêm à cidade, de férias ou de passagem, e são sempre levados por feirenses que querem mostrar àqueles o que de melhor é produzido na área musical em Feira.

No ano passado, na entrega do Troféu Imprensa, Maryzélia e os Coisinho foram convidados para se apresentarem antes do cantor Xangai. Foi arrumado um espaço no mesmo nível da pista dedicado a ela e seus companheiros e outro, elevado, onde Xangai se apresentaria. Terminada a apresentação da cantora feirense, o homem foi chamado a subir no palco, que já estava arrumado à sua espera. Alguns presentes ouviram quando Xangai disse: “Não quero me apresentar no palco elevado, não. Quero cantar no mesmo lugar onde Maryzélia e os ‘Cumpadinho’ se apresentaram, e quero também que eles me deem a honra de suas companhias”. Alguém que estava na plateia ouviu uma pessoa predizer, parafraseando Ari Barroso (quando este viu e ouviu Elza Soares cantar pela primeira vez em seu programa de auditório): “Nasceu uma estrela!”

domingo, 23 de janeiro de 2011

George Lima: Um artista em construção

O primeiro tijolo de uma obra em construção
Sem título. Fila de caruru em Cachoeira, quem se banqueteia é o fotógrafo

Nascido numa família de artesãos e comerciante (avô alfaiate, mãe costureira e pai camelô), o feirense George Lima Silva, que completará 44 anos no próximo dia 30, tem se destacado no cenário das artes contemporâneas na Bahia desde a primeira década deste século.

George fez seu primeiro trabalho artístico com 7 anos. No quintal de sua casa, diante de um tijolo de construção, o garoto percebeu que a composição daquele retângulo de alvenaria se assemelhava ao gesso, quando sentiu que ele não era tão difícil de cavar. E, daquela burilação, com uma faquinha sem ponta, instintivamente, nasceu um pé humano. Os adultos, ao verem aquela escultura, admirados, não deixaram de fazer uma pergunta que para eles pareceu fundamental naquele momento: Se tratava de um pé de criança ou de um velho? “Ele tinha o formato arredondado de um pé de criança e, ao mesmo tempo, as unhas encravadas, características de alguns idosos”, explica o artista, que jura chorar muito até hoje o fato de ter perdido a sua primeira obra. Coisas que o tempo se encarregou de carregar.

É bastante significativo que sua primeira obra tenha sido um pé, cuja representação se transforma por diversas vezes no decorrer da história da arte. Outro fato para se observar é o material de que é feito o tijolo que se transformou no solitário pé: a terra sobre a qual pisamos e para onde se há de voltar. O fato de esta primeira obra ter-se desfeito com o passar dos anos, ou um pequeno descuido, ou ter-se extraviado é, realmente, lamentável, mas já vale pela sua ideia, que nasceu de um impulso instintivo, e a sua história.

Retratos do passado no presente
                     Foto da série Farra Encarnada/ Reprodução

Figuram também entre suas lembranças os retângulos, losangos e quadrados com que dona Marinalda, sua mãe, costureira, fazia cobertores de taco que ajudavam no orçamento familiar. Algumas dessas formas geométricas, ainda na infância, o inspirariam na confecção de balões de São João com papéis seda de várias cores. Mais tarde alguns formatos, superpostos como retalhos numa colcha ou tijolos numa obra ainda construção, reapareceriam em obras como “Resguardo”, apresentada em 2008 no Salão Regional de Artes Visuais da Bahia, em Itabuna; e “Coberta de Tacos” – arte comestível – obra composta por pedaços de beijus de variadas tonalidades, apresentada no Centro de Cultura Amélio Amorim (CCAAm), em 2009.

Desde pequeno, George também acompanhava seu pai, seu Gerson Pedro, às feiras livres, onde vendiam confecções (entre elas as famosas colchas confeccionadas por dona Marinalda). Nada mais natural que este ambiente que dá nome à cidade onde nasceu e se criou também esteja refletido em suas criações, de fotografias a esculturas, como a apresentada no Centro de Abastecimento de Feira de Santana, no final de dezembro de 2010. Para a mostra Intervenções Urbanas no Centro de Abastecimento, da qual participaram os principais artistas residentes na cidade, George construiu uma estrutura semelhante a dois cavaletes para telas, em forma de A. O detalhe fica por conta do material com que foi confeccionada a estrutura: pedaços de madeiras, restos de algumas barracas do próprio CA e cordões e barbantes encontrados também por lá.  No lugar de telas, que poderiam ser figurativas, ele esticou dois pedaços de pano branco, nos quais abriu rasgos com um estilete, "rompendo a superfície e deixando à mostra o material com que foi feita a estutura".

Até um Lugar de Coexistência

“A Coexistência não é necessariamente aprender a viver junto, mas talvez aprender a viver lado a lado” (Raphie Etgar)

Artista visual, arte educador, produtor cultural e designer visual, George chegou a frequentar alguns semestres do curso de Engenharia Civil, depois tentou fazer Economia, do qual também desistiu, ao perceber que no momento não era bem aquilo que queria. Atualmente, faz Letras Vernáculas na Uefs, é integrante do Grupo GEMA – Grupo de Pesquisa em Arte Contemporânea, de Feira de Santana. Entre outras atividades, ele edita a Revista de Arte QUANTA, em parceria com Edson Machado, Juraci Dórea e Maristela Ribeiro.

A partir de 1997, George Lima começa a frequentar oficinas com Caetano Dias (também feirense, é um dos artistas brasileiros que mais têm se projetado no cenário das artes plásticas nacional e internacionalmente), Chico Liberato e Ayrson Heráclito, Nora Dobarro e Almandrade promovidas pela Fundação Cultural do Estado (Funceb), que trazia mestres das artes para fazerem workshops antes de serem realizados os Salões Regionais de Artes Plásticas pelo interior do Estado. O papel desses artistas era mostrar para os iniciantes o modelo e formato de um salão, provocar e, de alguma forma, encaminhar os artistas recém-surgidos a produzir os seus trabalhos e a apresentá-los. Desde o ano 2003 George participa de diversas exposições coletivas e individuais, Salões Regionais de Arte do Estado da Bahia e intervenções urbanas, tendo em sua bagagem uma participação na IX Bienal do Recôncavo (2008).

LUGAR DE COEXISTÊNCIA

Sua última mostra individual, “Lugar de Coexistência”, que reúne 11 trabalhos fotográficos do artista, foi lançada na Galeria de Arte Carlo Barbosa (CUCA/Uefs), onde ficou de 21 de outubro a 19 de novembro de 2010. Atualmente, ela encontra-se em exposição no Museu Galeria de Arte Caetano Veloso, na Cidade de Santo Amaro da Purificação, desde 30 de novembro de 2010, indo até o próximo dia 31.

Embora a fotografia tenha entrado de fato em sua vida apenas em 2008, já com uma câmera digital, George lembra que ela nada mais é do que o recorte de um todo. “E esse recorte eu já vinha fazendo há muito mais tempo que esses três anos, antes mesmo de pegar numa câmera fotográfica, desde aquele primeiro tijolinho”.
Segundo o próprio artista, suas obras têm um caráter minimalista, pois “enxutas”, surgidas primeiro de uma ideia, um conceito. “Depois de prontas eu percebo que elas têm poucos elementos e que o seu formato apresenta características do construtivismo”, disse, referindo-se ao movimento artístico surgido no mundo socialista no início do século passado. Dentro do construtivismo, a pintura e a escultura são pensadas como construções – e não como representações –, guardando proximidade com a arquitetura em termos de materiais, procedimentos e objetivos.

Nascido no século XX e com a cabeça nas linguagens e suportes artísticos atuais, o artista que transformou o seu primeiro tijolo em um pé solitário mostra uma obra que nos leva a refletir sobre as construções físicas e (nem tanto assim) imaginárias. Ele participa de uma geração de artistas preocupados com os muros que as pessoas constroem física e mentalmente, contribuindo para a descontrução das barreiras e pela edificação de uma cultura de paz e tolerância num mundo que se mostra cada vez mais hostil.